Por que não sou espanhol

•Sexta-feira, 21 Maio 2010 • 2 comentários

Para a pessoa que quiser saber
por que não me reconheço espanhol,
por favor, tome a moléstia de ler
antes de pretender sair a prol

da ideologia da eliminação
de todo rasto de diversidade
dessa “Una, grande, libre” nação
criada e imposta com brutalidade.

Não sou espanhol pola geografia:
na minha terra há enormes verdes fragas,
filhas das tormentas do dia a dia,
que se salvam dos calores, das pragas.

Não sou pola língua de meus avôs,
de meus pais, meus vizinhos, de meus filhos,
mesmo se hoje está em estreita fos
por culpa de quem quer armar sarilhos.

Não me sinto quando sento a jantar,
quando recebo os frutos desta terra
que dá o privilégio de desfrutar
de delícias líquidas numa jerra.

Não me identifico pola ignorância
de qualquer espanhol sobre o meu povo:
à nossa origem não dão importância
até fracassarmos. Já não é novo.

Não podo irmanar-me pola má fé
de quem impede sermos soberanos
e decidir nosso futuro. É
melhor servirmos espanhóis ufanos.

Não assimilo deixar de ser eu
e submeter-me aos colonizadores,
perder a liberdade, ser um reu
de quem reconheço como invasores.

Não sou espanhol porque sou galego.
Não sou espanhol porque -não- não quero.
Não desejo sê-lo porque não nego
a necessidade de ser sincero

com o que sinto, minha identidade,
com o que desejo chegar a ser,
co intenso sentimento de saudade
pola Galiza, que me viu nascer.

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Balanço (e III)

•Segunda-feira, 19 Abril 2010 • 1 Comentário

Os enfermos não podemos
ficar sãos a curto prazo.
Os doutores não têm azo
e os de sempre nos fodemos.

Por falar dum hospital,
sem publicitá-lo nada
a gestão será privada,
porque o público está mal.

Que na Espanha há muito paro?
O presente aqui é mais cru.
O PIB vai como o cu?
Aqui não ’tá nada claro…

Isso sim! Ré-descoberta
foi a magia do tijolo.
Haveria que estar tolo
pra deixar-lhe a porta aberta.

E com estes oito versos
ponho fim a este aborto,
criação de poeta morto,
fruto de magins perversos.

Inspirado num artigo
da gente de Feijoomente,
pra termos muito presente
que governa o Inimigo.

Balanço (II)

•Segunda-feira, 12 Abril 2010 • 1 Comentário

As escolas já criadas
com dinheiro que é de todos
com traidores e vis modos
serão já privatizadas.

Livros antes gratuitos
agora de novo pagos.
Mira se fazem estragos
os políticos enxuitos!

O sistema educativo
está ao borde do colapso.
Num breve, efémero lapso,
transformarom-no em cativo.

É já um assunto dos fados
a imposição tão falaz,
obstinada, contumaz,
dos imundos renegados.

Nossa classe de operários
paga a crise dos senhores
que, despidem, segundo os lores
e critérios arbitrários.

Nem se livram os idosos,
que ficam sem os lugares
onde aliviar os pesares,
falar de amores fogosos.

Balanço (I)

•Segunda-feira, 5 Abril 2010 • Deixe um Comentário

Estava eu a acabar
estas cortas vacações
e, por meus santos colhões,
já me tivem de inteirar

de como este desgoverno
dos paletos do barrete
estão a fazer banquete
do nosso país eterno.

A proteção do Rural
já não é uma prioridade.
Impulsar a atividade
financeira, comercial,

de empresários e amigos
do setor da construção
é maior motivação,
tanto tem se há testigos.

O caso das renováveis
é-vos também insultante
por não levarem adiante
projetos justificáveis.

Éolo prostituído,
a sua força roubada,
a riqueza arrebatada,
um povo inteiro traído.

Vergonha e remorso

•Segunda-feira, 22 Março 2010 • 6 comentários

Quem de um neno é capaz
sem remorso de abusar
mereceria afrontar
o mesmo que esse rapaz
(não me julguem brutanaz
por me deixar comover
e o meu sangre ferver).
Ainda mais raiva dá
ver que tudo passará
e nada se vai mover,
o chefe não punirá
e mesmo o perdão dará
sem nem se ruborescer.

Pobres crianças de Irlanda
vítimas de sacerdotes
que, tomando-os por zotes,
gozarom da sua pele branda:
não forom como Deus manda.
Tanta vida destroçada.
Tanta infância assassinada.
Tanto cabrão sem castigo
convertido em inimigo
da decência equilibrada.
Tanto silêncio testigo
de aberrações no jazigo
da inocência massacrada.

O Papa não tem vergonha
nem honor, tampouco é digno
de luitar contra “o maligno”
se não combate a peçonha,
se não limpa bem a ronha
do seu querido rebanho,
não seja logo o dianho
que se saiba tudo… Chuta!
Que grandes filhos da puta!
Que gente podre, caranho!
Que desprezível conduta!
Assumo minha esta luta:
usar com eles fouçanho!

Tradução

•Quinta-feira, 18 Março 2010 • 2 comentários

Não é a minha intenção falar de insultante jeito,
mas há momentos [paspão] que valem como exceção.
Vergonha tinha de dar faltar assim ao respeito
a um povo inteiro [mamão] que lhe deu a posição.

O fato de traduzir os grandes mestres galegos
não é senão um honor para autor e tradutor
(ou seria se [papão] não estivessem tão cegos
alguns políticos néscios que carecem de honor).

Para tudo há um momento, uma ocasião e lugar,
e não é o Parlamento em hora de debater
conjuntura ajeitada para interpretar
o Daniel Castelão se não é pra nos foder.

Você já foi acusado de tentar destruir
a língua do nosso povo (será também o seu?).
Pode fingir [mamalão] que não é quem de ouvir
mas sabemos, você e eu, que não age nunca atreu.

E polas minhas palavras não se sinta injuriado,
não é senão [cagalhão] a chamada de atenção
que todo galego bom e generoso, honrado,
lhe daria pra dizer-lhe que é você um [cabrão].

Quadras por decreto

•Segunda-feira, 15 Março 2010 • 3 comentários

– Desde Galícia Pilíngui
queremos solicitar
a liberdade de escolha
da língua curricular.

– Vou-vos fazer um decreto,
votai-me todos a mim,
um decretaço moderno.
Encargo-lho àlgum pimpim.

Falai por todas as casas
da imposição bipartida
duma língua de pailães.
Eu já decreto em seguida.

– O povo rejeita a aldragem
que querem os renegados,
com votos cosmopaletos
de incultos e acomplexados.

Encher a Quintã de Mortos,
tomar também o Obradoiro,
não é sinal suficiente
do nosso enfado, recoiro?!

– Para manter a palavra
a promessa hei de cumprir.
Vou aprovar o decreto
e a imposição abolir.

– O decreto é ilegal,
bem certo é que o senhor sabe.
Vai contra as leis, o Estatuto,
na legislação no cabe.

– Não há problema, coitados,
já topei a solução:
em galego irá a história
(com possível isenção)

mas em castelhano a ciência
exata e com [mais] rigor
(para os nenos aprenderem
“um mais um são dous, senhor”).

– Isso era o prometido?
Acho que não, Presidente.
Ainda vai ser verdade
isso de que Feijoo mente

Não era o que nós queríamos.
Nossos desejos traídos.
Demos-lhe o nosso suporte
e deixou-nos bem fodidos.

– Que fique clara a lição
que nos dá esta triste história:
o poderoso ilude
e manipula a memória.

Para chegar ao poder
diz o que for necessário
que, sabe, não vai cumprir
se não periga o salário.

No país não há governo.
Apenas uma brigada
de destruição e limpeza
étnica sob mascarada.